Notas da quarentena para a revista Pan


Salvação

Language is a virus from other space
William Burroughs

Ela disse meu nome, pensei que não ouvi direito, mas enquanto eu trocava sua fralda ela olhou nos meus olhos com um sorriso de canto e disse meu nome. Foi a primeira vez que achei meu nome bonito. Três sílabas, sibilado e sincopado, um nome tão feio que já foi confundido com nome de remédio, com um lugar distante, com uma parte do rosto.

- Não tenha medo, Pato Dony.
- Não fique triste, Bob Ponja.

No começo da vida dos teus filhos, você sabe imediatamente de onde as primeiras palavras deles vêm. Depois de um tempo, o número de palavras aumenta, e você perde o controle da origem delas. Eu tomo muitos sustos. Em tempos de pandemia, percebi que as palavras são infecciosas.

A disseminação do novo coronavírus coincidiu com um salto de crescimento vocabular e motor das minhas filhas gêmeas. Elas só têm dois anos, mas parece que viveram muitos nesses últimos meses sem pôr os pezinhos gordos na rua. A convivência aqui em casa está tão intensa que uma delas usou a palavra “excesso".

Então para não enlouquecer, e também para conter o medo, passei a coletar frases soltas e situações iluminadas, que no perímetro da nossa casa, eclodem como estrelas no nosso céu escuro. A seguir, um registro solto dessas notas e cambalhotas de significados que as minhas filhas dão:

- Cabelo lindo, mamãe.
- Eu penteei, filha.
- Viva!

Vimos o vento passar e balançar as plantas. Depois perguntei:
- Como o vento faz?
- O vento faz.

- O que é ema, mamãe?
- E uma galinha alta, filha.

Madalena ouviu a água ferver:
- Mamãe, o café tá falando!

Palavras que o pai ensina:
Bateria, Aventura e Alho.

Palavras que a mãe ensina:
Medo, Bochecha, Espuma.

Olga comentando o silêncio da noite, depois de muitos dias sem sair de casa, heroicamente conectada à vibração que vem de fora:
- Mamãe, o barulho foi dormir.

Enquanto minhas filhas se metem nos meus cantos mais secretos e invadem meus silêncios com suas raízes grossas, eu aprendo que palavras também são vacinas.
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Texto para Pan #06

 













(Arte de Jackson Araujo sobre colagem das pururucas.)