Oi, Z.,


São Paulo, 14 de julho de 2015

Oi, Z.,

Há meses e meses venho pensando em te escrever. Atropelei a ordem misteriosa da vida e anunciei o meu desejo de te dizer o que nem sabia. Desculpa ter demorado tanto.
No dia em que ganhei o casal de cangaceiros que você me trouxe de uma viagem, derrubei uma das peças no chão. O braço da cangaceira quebrou. Por sorte, J. encontrou o pequeno pedaço, que só foi ser colado meses depois. (Mais uma vez a ordem misteriosa das coisas se impõe sobre nossa vontade.)
Hoje, restaurado, o casal de nordestinos enfeita a minha cozinha. E por isso, todos os dias, lembro de você: o carinho que veio de longe, quando menos esperei recebê-lo, e sua perda imensa, quando você menos esperou vivê-la.
Pode parecer triste, mas não é. O que eu vejo, quando, na pressa do dia, meus olhos correm sobre a bancada da cozinha, capturando aquelas duas peças coloridas, é que a vida, o que também posso chamar a ordem misteriosa das coisas, é justamente esse rastro de cor que fica capturado nos nossos olhos. Também posso chamar esse rastro de cor de “amor”.
Eu perdi a minha mãe de uma maneira muito triste — todas as maneiras de perder alguém são tristes? Você perdeu seu filho de uma maneira muito triste. O que nos sobrou? Tento adivinhar até hoje. Não consigo reduzir o mistério a uma só resposta, porque sou invadida por muitas respostas.
Por exemplo: sobraram todas as fotos e histórias que a minha mãe deixou na boca de outras pessoas. Sobraram meus pés que todos dizem ser iguais aos dela. Sobraram as canções de ninar que ela costumava cantar para mim e que ficaram adormecidas no meu coração. Sobraram muitos abraços e beijos e presentes que recebi ao longo de 35 anos e alguns meses de vida (o casal de cangaceiros incluso). Sobraram a empatia e a ternura que brotam de conversas profundas, como a que tivemos outro dia na sala de J., igualmente enfeitada pelo mesmo casalzinho de louça. (Você costuma repetir os presentes?) Sobrou o amor imenso que sentimos por ela, o que nos une numa cadeia interminável de afeto.
O que eu quis te dizer aqui nem sei se consigo. Mas é isso. É indizível, nosso coração sente um calor e seguimos a vida e até ganhamos com as perdas, e é bom.
Um abraço, amigo Z. Que a vida te siga sempre dando motivos para presentear alguém.
N.